O SOL QUE TE TROUXE - POV LUA

Lua sentou-se na varanda de sua casa, em uma quinta-feira de maio, após um longo dia de trabalho e olhou para céu noturno com grande atenção. Ouvia o barulho da cidade, que ressoava em seus ouvidos como se estivesse no volume máximo de algum rádio velho. Respirou fundo, enquanto seus olhos se enchiam de lagrimas, sem conseguir derramar uma gota se quer. Sentiu novamente um aperto no peito, lembrando que essa sensação estava presente já tinha um tempo.

Desde que decidiu aceitar o fim e deixa-lo, sentia diariamente uma dor em seu peito, como se estivesse com um espinho muito bem cravado em seu coração. Sentia sua falta todos os dias. Não passava um dia se quer sem pensar sobre aquele que a machucara. Era uma sensação sufocante. As vezes sentia que perderia o ar, outras vezes sentia que seu coração partiria em dois. A sensação era de ter uma mão envolvida em seu peito, apertando sem piedade, fazendo com que sangrasse e congelasse. Isso se repetia toda vez que permitia que ele retornasse para sua vida, sucessivamente, apertando, sangrando e congelando.

O espinho, aperto que sentia no peito, parecia ser feito de mágoa e se mostrava forte e presente, toda vez que percebia que havia voltado para o mesmo local de sua dor. Sentia-se boba, por não conseguir odiá-lo. Sentia-se boba, por não conseguir deixa-lo inteiramente. Enquanto ele seguia sua vida, sentia-se novamente boba, por não seguir em frente. “Por que é tão difícil assim para mim? Por que isso está demorando passar?”.

Seu coração doía ao encontra-lo com seu novo par pelas ruas da cidade. Na verdade, só o pensamento de encontra-los fazia seu coração congelar e seu estomago revirar. Pensava constantemente, “Por que não eu? O que há de errado comigo?”. Ao mesmo tempo, recebia um pensamento contrário pois também entendia que não há nada de errado em não conseguir criar laços e conexões recíprocas. Lembrou-se das vezes em que também não foi capaz de corresponder aos sentimentos de outras pessoas que esperavam apenas uma chance para faze-la feliz.

Ainda olhando para o céu, respirou fundo novamente, notando os pontos de luz que piscavam distante na escuridão. Lembrou-se da ultima noite em que esteve com ele, onde olhou para o mesmo céu estrelado, segurando o choro. Não havia amor em seu toque, nem em seu beijo. Naquele momento, naquele exato momento, soube que seu coração não pertencia mais a ela. Sentiu uma dor aguda, como se em seu peito fossem cravadas mil flechas. Tem para si que foi nesse dia que o espinho, que a acompanha diariamente, foi cravado de vez.

Ao relembrar esse momento, a dor transbordou e a fez chorar. Alivio surgiu sobre seu corpo após liberar um pouco desse sentimento rejeitado e preso em seu coração. Sabia que o alivio seria momentâneo. O espinho se moveu um pouco, mas logo voltaria ao seu lugar. Permaneceria vivo, pulsante e dolorido.

Com um suspiro de aceitação, Lua levantou e foi para a cozinha. Pegou sua xícara favorita, colocou um pouco de leite com café e esquentou no micro-ondas. Se tinha uma coisa que a confortava, era a sensação de uma bebida quente em seu estômago. Ficou parada na frente do micro-ondas, fitando o nada, até voltar para si ao ouvir o apitar do aparelho doméstico, retomando sua atenção para a xicara. 

Foi para a sala de estar, acendeu a luz fraca de um abajur e sentou na poltrona de seu pai, com ambas as pernas no estofado. Assoprou um pouco seu leite, pois não prestou atenção na quantidade de tempo que precisava colocar e por isso passou um pouco da temperatura que gostava. Fitou novamente o nada, enquanto esperava o leite esfriar um pouco. Um longo choro costuma fazer com que o corpo e a mente entre em um tipo de transe, não existe pensamento. Existe você e o ambiente em que está, juntamente com o silencio calmo que vem depois da catarse.

“Agradeço, universo, por mais um dia. Sinto muito pela dor que causei a Você de alguma forma. Me desculpe por ter dificuldade com a cura. Te amo por ser parte de Você.”

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